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Pessach, a festa que liberta da escravidão

Atualizado: 22 de abr.

Por: Gavriel Levi



“A atividade laboral que o Shabat delimita não é apenas o trabalho árduo, pesado e cansativo, mas, mais precisamente, identifica o trabalho de planejamento, intencional e criativo; ou seja, o trabalho que constrói o livre pensamento humano”, escreve Gavriel Levi, em artigo publicado por Repubblica, 30-03-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.


Com a festa de Pessach, os judeus lembram a saída do Egito, a fábrica da escravidão, onde estiveram por vários séculos. Este período histórico culmina com o Pessach (a passagem), no momento em que sentem que se tornaram um povo particular, o protagonista de uma liberdade universal.


Emmanuel Lévinas expressou claramente esta ideia: “O particularismo de Israel é a chave do seu universalismo ético e religioso”. Um único povo que, em cada geração, escolhe penosamente continuar a ser si mesmo, afirma uma possibilidade aberta, para o direito de cada povo de permanecer si mesmo, em igualdade absoluta com todas as outras culturas e religiões. No relato bíblico, Abraão (pai de todas as nações) começa sua jornada ao receber uma promessa: “serás a bênção para todas as famílias da terra”.


Voltemos à saída do Egito e seu problema substancial. Durante 400 anos os judeus permaneceram no Egito, primeiro como estrangeiros (embora enquadrados), depois como duplamente escravos (escravos em uma sociedade de escravos) e finalmente brutalizados e anulados, porque foram privados de qualquer identidade humana. Ao longo dos séculos, os Mestres definiram essa queda progressiva e inexorável como: “o exílio da consciência e de se colocar em relação”. Nessa perspectiva, a entrada e a permanência no Egito são muito mais problemáticas e decisivas do que a saída do Egito.


A pergunta secreta da festa de Pessach é: “Muito bem, estamos felizes por termos saído do Egito, mas realmente tivemos que entrar?”.


Na verdade, o traço que o relato bíblico claramente constrói implica justamente este problema: por que, para adquirir uma consciência humana e uma identidade completa, é necessário viver a consciência da escravidão?


Esse discurso está bem estruturado na lógica da história bíblica e constitui a leitura existencial de grande parte do livro de Bereshith (Gênesis). O pacto de fundação que investe Abraão como o primeiro patriarca do povo judeu estabelece que um longo período de exílio-escravidão é uma condição necessária e absoluta, uma verdadeira predestinação, para o nascimento do povo judeu. Essa escolha é tão incrível que Abraão, ao aceitar esse pacto doloroso e dilacerante, cai em uma dimensão de terror e tem a visão mais numinosa de sua vida.


Vamos tentar aprofundar o ponto. A experiência profunda e obrigatória da escravidão corresponde a ter que sentir, para sempre dentro da própria alma, o que significa ser privado da própria vontade e até da capacidade de manter a própria intencionalidade humana. É um paradoxo ético, pesado mas compreensível: para ser livre é preciso entender o que significa ser escravo; naturalmente sê-lo na primeira pessoa, mas igualmente tornar-se, no risco de subjugar outras pessoas. Também no texto bíblico existe um pequeno mistério linguístico, que tem sido objeto de várias discussões talmúdicas: a festa de Pessach dura 7-8 dias. O primeiro dia de Pessach é curiosamente também chamado de sábado, embora também possa cair em outros dias da semana. Ressalte-se que a abstenção absoluta do trabalho prevista para o sábado judaico também é motivada pela lembrança da saída do Egito “para que seu escravo e sua serva possam repousar como você”.


É bastante útil desenvolver esse raciocínio com um acréscimo final. A atividade laboral que o sábado judaico delimita não é apenas o trabalho árduo, pesado e cansativo, mas, mais precisamente, identifica o trabalho de planejamento, intencional e criativo; ou seja, o trabalho que constrói o livre pensamento humano.


Em resumo, parece que os judeus comemoram a saída do Egito uma vez por ano, em Pessach. Com maior insistência, os judeus relembram a entrada e a permanência no Egito toda semana, durante um dia inteiro. Ao se abster de todo trabalho no sábado, os judeus lembram de que nenhum ser humano pode ser ou se tornar escravo de outro ser humano.


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Matéria publicada no Kadimah na edição de abril de 2024



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